
Ele veio, mas eu não estava lá.
Já me torturei o bastante, agora divido com meus (três) leitores - as duas filhas e o gato Gustavo Michael - duas matérias que foram publicadas na grande imprensa sobre ele.
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Mais de 42 jornalistas lotaram a sala de coletivas na Pousada do Ouro, em Paraty, e muitos outros se acotovelavam junto à porta de entrada, sem contar cinegrafistas, fotógrafos e simples curiosos. No fundo da sala, impecavelmente vestido com um terno bege, colete, gravata verde-água e o indefectível chapéu pousado sobre a mesa, o escritor e jornalista Gay Talese respondeu perguntas com longas digressões – sobre o mundo, a vida, sua biografia, o jornalismo, o escrever.
“Você não pode passar a vida procurando as coisas no Google”, avisou aos repórteres. “Você tem de estar lá. Falar com as pessoas, prestar atenção.”
Quem estava lá, diante dele e de sua verve de contador de histórias, deve ter notado que Talese, de fato, nunca “gogglou” nada. Persistência e determinação parecem ser suas palavras-de-ordem – e só essas qualidades podem explicar o perfeito perfil de Frank Sinatra que o escritor produziu, sem nunca ter trocado mais do que duas palavras com o cantor.
“Não me venham dizer que o problema é dinheiro. Quem quer ir à China para escrever sobre a China vai acabar encontrando um jeito de chegar lá.” Nem que seja para dizer que “a China está resfriada”...
A “coletiva” foi, na verdade, uma palestra. No máximo três perguntas foram formuladas – não por falta de curiosidade, mas por falta de espaço para fazer perguntas – e Talese ignorou-as solenemente, usando-as como gancho para falar do que bem entendesse. Foi assim que contou a história da vida de seu pai, um alfaiate calabrês que rompeu todos os laços com a Calábria e mesmo com a Itália ao imigrar para os Estados Unidos, o que explica porque Talese se define como a foreign-born American – um americano nascido fora do país.
Ele também define os Estados Unidos como um país “feito de gente que sabe dizer adeus e romper laços”, como fez seu pai. O que, na sua opinião, explica a agressiva política externa americana. “Esse tipo de gente não é sentimental”, explicou.
Um dos raros perguntadores quis saber como ele, Talese, cobriria o caso argentino do governador da Carolina do Sul. Talese não respondeu, claro. Mas se lançou a rememorar os tempos em que ainda era um simples repórter quando Kennedy – um notório mulherengo – estava no poder.
“Todo mundo sabia dos casos dele, mas ninguém publicava nada das histórias que hoje seriam manchetes”, lembrou, para em seguida esclarecer todas as dúvidas e explicar por quê tais assuntos são, hoje, um prato cheio para a mídia.“Há duas razões”, disse ele e responsabilizou as mulheres nos dois casos. “A primeira é que, no tempo do Kennedy, havia pouquíssimas mulheres jornalistas e elas só cobriam moda e sociedade. A segunda é que tampouco havia mulheres advogadas e, hoje, mais de 50% dos formados em Direito nos EUA são mulheres.”
O resultado dessa combinação, acredita Talese, é que, nas redações, as mulheres pressionaram pela publicação de histórias sobre a vida privada de pessoas públicas – afinal, le personnel est politique, como diziam as feministas francesas dos anos 70. E, nos tribunais, também as mulheres teriam criado todo um vocabulário sexual que Talese até hoje não sabe o que significa. “O que é ‘abuso’, por exemplo? Será que, no colégio católico onde estudei, as freiras abusavam de mim quando me davam coques? Disseram que o Michael Jackson ‘abusou’ de um menino. O que significa ‘abusar’ aqui? Por que não dizem simplesmente que ‘o Michael Jackson introduziu seu pênis na orelha de um menino’? Aí, sim, eu saberei que o menino foi mesmo abusado!”
Divertido, instigante, simpático, charmoso. E um tremendo escritor, que não queria ser repórter, queria “escrever contos com gente de verdade como personagens”. Aos 77 anos, tendo feito isso magistralmente ao longo de sua vida, adquiriu certamente o direito de culpar as mulheres pela má qualidade da mídia contemporânea e pela insuportável correção política do vocabulário. Delenda uxori, pois! (Assessoria da Flip)
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Com a elegância costumeira pela qual é famoso, o jornalista norte-americano Gay Talese -usando chapéu panamá, terno, colete verde e gravata amarela, além de reluzentes sapatos de couro- lembrou os jornalistas, durante entrevista coletiva hoje, sobre a importância da elegância e das boas maneiras na profissão.
"O jornalismo é, essencialmente, bater na porta. Você está vendendo alguma coisa? Está, está vendendo a si mesmo.''
O jornalista falou ainda da importância do acaso, do encontro e das boas maneiras nas relações pessoais, afirmando ser necessário mais empenho e ação pessoal que pesquisa pela internet. "Não é possível usar o Google para construir a sua vida. É preciso, antes de mais nada, estar presente.''
Durante 1h30min -extrapolando os 40 minutos dados pela organização da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty)-, Talese conversou com quase 50 jornalistas, respondendo de forma completa e elaborada às três perguntas que foram feitas.
Ao comentar a importância do processo de pesquisa na profissão, Talese falou durante quase 40 minutos sobre um episódio que narra em seu mais recente livro, "Vida de Escritor''. Contou que a partir da final da Copa do Mundo de futebol feminino, em 1999, ele foi por conta própria até a China para tentar entrevistar a jogadora chinesa que perdeu o pênalti que custou à sua seleção o título.
Depois de burocracias com o Ministério dos Esportes, Talese conseguiu encontrar a jogadora. A entrevista, porém, não serviu para nada -ela não falava inglês, ele não fala chinês e o tradutor era péssimo. Porém, ele não voltou para os EUA. Ficou em Pequim para conseguir descobrir o que faria com aquilo. "Como entrevistador, como escritor de não ficção, você tem que ficar e descobrir o que fazer em seguida'', disse, acrescentando que decidiu entrevistar a mãe e a avó da jogadora, e terminou, após três meses em Pequim e de ver a seleção chinesa nas Olimpíadas de Sidney, por escrever uma longa matéria sobre a nova China, do ponto de vista feminino.
Talese explicou que aqueles que em princípio seriam personagens secundários tornaram-se os agentes principais. Ou seja, ele escreveu não sobre a jogadora, mas sobre resistência, mudança e perseverança, que são sentimentos universais. Para ele, essa deve ser a grande preocupação de um jornalista.
"Não é preciso escrever em quantidade. Mesmo quando escrevia para um jornal cotidiano, eu não estava preocupado em falar para o leitor do dia seguinte. Procurava fazer textos que perdurassem e fizessem sentido anos depois'', disse. (Folhapress)








