02/07/2009

Gay Talese sabe tudo


Ele veio, mas eu não estava lá.

Já me torturei o bastante, agora divido com meus (três) leitores - as duas filhas e o gato Gustavo Michael - duas matérias que foram publicadas na grande imprensa sobre ele.


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Mais de 42 jornalistas lotaram a sala de coletivas na Pousada do Ouro, em Paraty, e muitos outros se acotovelavam junto à porta de entrada, sem contar cinegrafistas, fotógrafos e simples curiosos. No fundo da sala, impecavelmente vestido com um terno bege, colete, gravata verde-água e o indefectível chapéu pousado sobre a mesa, o escritor e jornalista Gay Talese respondeu perguntas com longas digressões – sobre o mundo, a vida, sua biografia, o jornalismo, o escrever.

“Você não pode passar a vida procurando as coisas no Google”, avisou aos repórteres. “Você tem de estar lá. Falar com as pessoas, prestar atenção.”

Quem estava lá, diante dele e de sua verve de contador de histórias, deve ter notado que Talese, de fato, nunca “gogglou” nada. Persistência e determinação parecem ser suas palavras-de-ordem – e só essas qualidades podem explicar o perfeito perfil de Frank Sinatra que o escritor produziu, sem nunca ter trocado mais do que duas palavras com o cantor.

“Não me venham dizer que o problema é dinheiro. Quem quer ir à China para escrever sobre a China vai acabar encontrando um jeito de chegar lá.” Nem que seja para dizer que “a China está resfriada”...

A “coletiva” foi, na verdade, uma palestra. No máximo três perguntas foram formuladas – não por falta de curiosidade, mas por falta de espaço para fazer perguntas – e Talese ignorou-as solenemente, usando-as como gancho para falar do que bem entendesse. Foi assim que contou a história da vida de seu pai, um alfaiate calabrês que rompeu todos os laços com a Calábria e mesmo com a Itália ao imigrar para os Estados Unidos, o que explica porque Talese se define como a foreign-born American – um americano nascido fora do país.

Ele também define os Estados Unidos como um país “feito de gente que sabe dizer adeus e romper laços”, como fez seu pai. O que, na sua opinião, explica a agressiva política externa americana. “Esse tipo de gente não é sentimental”, explicou.

Um dos raros perguntadores quis saber como ele, Talese, cobriria o caso argentino do governador da Carolina do Sul. Talese não respondeu, claro. Mas se lançou a rememorar os tempos em que ainda era um simples repórter quando Kennedy – um notório mulherengo – estava no poder.

“Todo mundo sabia dos casos dele, mas ninguém publicava nada das histórias que hoje seriam manchetes”, lembrou, para em seguida esclarecer todas as dúvidas e explicar por quê tais assuntos são, hoje, um prato cheio para a mídia.“Há duas razões”, disse ele e responsabilizou as mulheres nos dois casos. “A primeira é que, no tempo do Kennedy, havia pouquíssimas mulheres jornalistas e elas só cobriam moda e sociedade. A segunda é que tampouco havia mulheres advogadas e, hoje, mais de 50% dos formados em Direito nos EUA são mulheres.”

O resultado dessa combinação, acredita Talese, é que, nas redações, as mulheres pressionaram pela publicação de histórias sobre a vida privada de pessoas públicas – afinal, le personnel est politique, como diziam as feministas francesas dos anos 70. E, nos tribunais, também as mulheres teriam criado todo um vocabulário sexual que Talese até hoje não sabe o que significa. “O que é ‘abuso’, por exemplo? Será que, no colégio católico onde estudei, as freiras abusavam de mim quando me davam coques? Disseram que o Michael Jackson ‘abusou’ de um menino. O que significa ‘abusar’ aqui? Por que não dizem simplesmente que ‘o Michael Jackson introduziu seu pênis na orelha de um menino’? Aí, sim, eu saberei que o menino foi mesmo abusado!”

Divertido, instigante, simpático, charmoso. E um tremendo escritor, que não queria ser repórter, queria “escrever contos com gente de verdade como personagens”. Aos 77 anos, tendo feito isso magistralmente ao longo de sua vida, adquiriu certamente o direito de culpar as mulheres pela má qualidade da mídia contemporânea e pela insuportável correção política do vocabulário. Delenda uxori, pois! (Assessoria da Flip)


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Com a elegância costumeira pela qual é famoso, o jornalista norte-americano Gay Talese -usando chapéu panamá, terno, colete verde e gravata amarela, além de reluzentes sapatos de couro- lembrou os jornalistas, durante entrevista coletiva hoje, sobre a importância da elegância e das boas maneiras na profissão.

"O jornalismo é, essencialmente, bater na porta. Você está vendendo alguma coisa? Está, está vendendo a si mesmo.''

O jornalista falou ainda da importância do acaso, do encontro e das boas maneiras nas relações pessoais, afirmando ser necessário mais empenho e ação pessoal que pesquisa pela internet. "Não é possível usar o Google para construir a sua vida. É preciso, antes de mais nada, estar presente.''

Durante 1h30min -extrapolando os 40 minutos dados pela organização da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty)-, Talese conversou com quase 50 jornalistas, respondendo de forma completa e elaborada às três perguntas que foram feitas.

Ao comentar a importância do processo de pesquisa na profissão, Talese falou durante quase 40 minutos sobre um episódio que narra em seu mais recente livro, "Vida de Escritor''. Contou que a partir da final da Copa do Mundo de futebol feminino, em 1999, ele foi por conta própria até a China para tentar entrevistar a jogadora chinesa que perdeu o pênalti que custou à sua seleção o título.

Depois de burocracias com o Ministério dos Esportes, Talese conseguiu encontrar a jogadora. A entrevista, porém, não serviu para nada -ela não falava inglês, ele não fala chinês e o tradutor era péssimo. Porém, ele não voltou para os EUA. Ficou em Pequim para conseguir descobrir o que faria com aquilo. "Como entrevistador, como escritor de não ficção, você tem que ficar e descobrir o que fazer em seguida'', disse, acrescentando que decidiu entrevistar a mãe e a avó da jogadora, e terminou, após três meses em Pequim e de ver a seleção chinesa nas Olimpíadas de Sidney, por escrever uma longa matéria sobre a nova China, do ponto de vista feminino.

Talese explicou que aqueles que em princípio seriam personagens secundários tornaram-se os agentes principais. Ou seja, ele escreveu não sobre a jogadora, mas sobre resistência, mudança e perseverança, que são sentimentos universais. Para ele, essa deve ser a grande preocupação de um jornalista.

"Não é preciso escrever em quantidade. Mesmo quando escrevia para um jornal cotidiano, eu não estava preocupado em falar para o leitor do dia seguinte. Procurava fazer textos que perdurassem e fizessem sentido anos depois'', disse. (Folhapress)

27/06/2009

Um mito não morre


Uma notícia num site de fofocas. De repente, flashes ao vivo da porta do hospital. O Twitter explode em mensagens. A CNN confirma. O rei está morto. Michael Jackson se foi. No monitor da TV, vejo um show em que Michael canta "Billie Jean" para uma plateia gigantesca. São cenas contraditórias, algo não se encaixa. Pensar que Michael Jackson está morto é enterrar parte da alegria da juventude de milhares de pessoas. Não, não quero acreditar.
Michael nos fez amar a música negra, nos ensinou a dançar o break, misturou tudo isso com rock e, como se não bastasse, nos entronizou na era do videoclipe, da música pop que alcança todos os fones de ouvido, aqui, em Nova York ou no Paquistão. Misterioso, invencível, perigoso, andrógino, meio homem meio felino, um mito, no sentido mais profundo da palavra. Um herói trágico, aquele que sucumbe ao seu próprio destino, que se mantém solitário até o último momento.
Michael foi tudo isso. E foi ainda o ídolo de milhares de meninos e meninas da Nova Dhéli global que se multiplica ao redor do mundo. Na distante Belém do Pará, nos idos de 1980, não havia escola que não tivesse o seu próprio Michael Jackson, o menino que encantava a todos imitando os passos do ídolo. Anos depois, todo mundo parou pra ver "Thriller" no Fantástico. Entre o medo e o fascínio, uma certeza: ninguém nunca havia trafegado com tanta maestria entre a arte e a cultura de massas. E olha que ainda nem existia internet.
Não, Michael não iria nos deixar sem um clipe cheio de efeitos especiais, sem um mega show com aquelas coreografias de tirar o fôlego, sem um truque de magia diante de nossos olhos. Michael, o homem bicentenário do pop, que iria viver até os 150 anos, que queria ser imortal, não iria embora assim, sem mais nem menos. O mundo não teria a menor graça.

14/06/2009

Uma noite com o Rei

Gentem, não consegui pegar nenhuma rosa! Ahazada!
São exatamente 22h36 quando as luzes se apagam e gritos ecoam pelo Hangar. Nos dois telões à esquerda e à direita do palco, cenas de especiais da TV, trechos de reportagens, imagens raras: Roberto Carlos vestido de palhaço, dividindo o palco com Caetano Veloso, dirigindo ao lado de Ayrton Senna, caminhando num bosque com Tom Jobim. Sim, ele está entre nós, e a simples expectativa de vê-lo surgir deixa a platéia no tênue limite entre a ansiedade e a histeria.

O terno bege bem alinhado, o cabelo grisalho, o sorriso franco. É ele. E já chega com um clássico absoluto da música brasileira, a nossa “Je ne regrette rien”, a nossa “My Way”. “Que prazer rever vocês”, diz, ao som dos primeiros acordes de “Emoções”.“Que maravilha, está tudo perfeito. Obrigado por esse amor, obrigado pelo carinho desde que nasci. Eu gostaria de dizer muita coisa, mas digo melhor cantando”, são as primeiras palavras de Roberto Carlos no show em Belém. Ainda não se passaram cinco minutos e a plateia inteira já está entregue. Aliás, o que se vê a partir daí é uma sequência perfeita de hits, músicas que embalaram sonhos, viagens, romances, perdas,mudanças, enfim, experiências de vida de milhares de pessoas. O coro é unânime em “Eu te amo, te amo, te amo”, e segue afinado em “Além do horizonte” e “Amor perfeito”. Roberto pega o violão e canta “Detalhes” e “Outra vez”.

Ouvidas assim, num clima de intimidade, quase cara a cara com ele, essas canções soam como verdades quase absolutas, belas confissões de amores mal-sucedidos. “Em situações como essa ninguém está sozinho. Então vamos cantar juntos”, diz ele, como se fosse um velho amigo. Mas nem tudo são amores perdidos. Logo em seguida, ela brinca e faz a plateia gargalhar.“Tomei um susto quando me disseram que eu estava fazendo 50 anos de carreira. Mas como, se eu ainda não tenho 50 anos?”. E olhando assim de perto, Roberto é muito mais jovem do que na TV ou nas capas de revista. Sua voz soa límpida e poderosa, sem errar uma nota jamais. Que mistérios guarda esse homem, jamais saberemos.

A data, no entanto, serve para que ele reveja sua trajetória de vida e traga de volta músicas como “Aquela casa simples”, “Meu querido, meu velho, meu amigo” e “Lady Laura”. Mas é em “Nossa Senhora”, que já se tornou uma das canções oficiais do Círio de Nazaré, que o Hangar se converte em pura emoção. E o que sentiria Roberto Carlos se visse em outubro aquela multidão de fiéis cantando sua música em devoção à Virgem? Não é difícil imaginar.

A fase dedicada às baixinhas, gordinhas, coroas, etc, felizmente é representada por apenas uma música, “Mulher pequena”, que ele canta com uma boa dose de malícia. E para justificar “Caminhoneiro”, ele conta uma história. “Aos dez anos eu era fascinado pelas histórias de caminhoneiro, em Cachoeiro de Itapemirim. Se eu não fosse cantor, seria caminhoneiro”, diz. Roberto volta aos corações dilacerados em “Do fundo do meu coração” e diz que gostaria de ter feito apenas canções de amores que deram certo, mas que quando compôs essa música – na verdade uma parceria com Erasmo Carlos – “tava complicado, tava brabo”.E continua: “Mas ainda bem que a vida tem outros momentos, de propostas incríveis, como essa que eu fiz...”. E começa a cantar “Eu te proponho/ Nós nos amarmos/ Nos entregarmos...”. E então vem o momento apoteótico do show, com “Cavalgada”, em que a interpretação, a banda, os efeitos de luz, tudo é puro espetáculo para os olhos e os ouvidos.

Roberto apresenta com orgulho os músicos que o acompanham na turnê; alguns há mais de 30 anos; outros ainda “meninos maestros”, como ele ressalta. Presta a devida reverência ao maestro Eduardo Lages, seu fiel escudeiro há 40 anos. E inicia, então, o momento Jovem Guarda do show, com “É proibido fumar”, “Namoradinha de um amigo meu”, “Quando”, “E por isso estou aqui” e “Jovens tardes de domingo”.O público sente que o show se aproxima do fim quando Roberto canta “É preciso saber viver”, tema que abriu a noite. E as fãs correm para a frente do palco, na esperança de levar pra casa uma das muitas rosas brancas e vermelhas que ele distribui religiosamente.

O show termina com “Jesus Cristo” e, enquanto uma senhora de meia idade tenta a todo custo exibir para o ídolo um poster dos anos 70, penso que é quase impossível mensurar o que as canções de Roberto representaram durante esses 50 anos de carreira. Dramas, romances, comédias, ilusões - está tudo ali, dito de uma forma simples, mas ao mesmo tempo rica. E como ele lembra, “sem saber se é pra rir ou pra chorar”, o importante é não perder o trem. Esse é um dos segredos do amor. E da vida.

10/06/2009

Vida de casado